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domingo, 16 de setembro de 2012

ARTIGO - COMISSÃO DE FRENTE: A PERFORMANCE DO SAMBA NA TERRA DA GAROA





Por Yaskara Donizeti Manzini
coreógrafa

Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Performance, processo criativo, dança afro-brasileira
São Paulo tem bamba, tem samba, e muita gente boa,
Não é só garoa.
Camisa, Bexiga, na Vela, o samba ecoa,
Não é só garoa





1. A Comissão de Frente é o primeiro contingente humano a pé ou sobre rodas a adentrar na avenida, segundo o regulamento da Liga das Escolas de Samba de São Paulo,

2.  a menor ala dentro de uma Escola de 68 • Anais do IV Congresso de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (Memória ABRACE X) Rio de Janeiro 2006

Samba, perfazendo um mínimo de seis e máximo de 15 integrantes, cuja performance vale trinta pontos para a agremiação. A ala tem por funções: saudar o público e apresentar a escola, seus integrantes podem se apresentar vestidos a rigor (forma tradicional) ou dentro da proposta do enredo.

É desta segunda maneira de se apresentar que trataremos nesta comunicação, fruto de nossa experiência, na qualidade de coreógrafa da Comissão de Frente, do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Camisa Verde e Branco,  desde 2001.

Criar, preparar e dirigir trabalhos para esta ala durante seis anos, fez refletir sobre fatores técnicos, estéticos e culturais que induzem o processo de concepção, ensaios e apresentação da Comissão de Frente  no carnaval, considerando as  performances: “Guerreiros Mongóis” (2001), “Trevo da sorte, trevo de quatro folhas” (2002), “O Grande Dragão do Mar” (2003), “A fada nostálgica apresenta” (2004), “Formas arcaicas de comunicação” (2005) e, em processo, “O séquito de Dioniso” para o enredo de 2006, “Das vinhas ao vinho – do profanom ao sagrado, uma viagem ao mundo do prazer com o néctar dos deuses”.

Material humano: os performers

Na agremiação acima citada, a ala Comissão de Frente é composta por homens (em sua maioria afrodescendentes), na faixa etária dos 20 aos 40 anos de idade, pertencentes à comunidade e sem formação artística. Um grupo bem heterogêneo  que possui em comum o amor pelo “Camisa Verde”.

Diferente de outras alas desta Escola de Samba, o componente da Comissão tem de possuir determinadas disponibilidades e qualidades para poder entrar e/ou permanecer na ala: tempo para ensaios e apresentações, possuir acima de 1,79 m de altura, ser disciplinado, cooperativo, entrosado com a equipe e não utilizar drogas de efeito alucinógeno. Estas qualidades são indispensáveis para adquirir o respeito da comunidade na Escola, criar uma coesão entre a ala para enfrentar os ensaios e apresentação na avenida, quando o que importa é o grupo como um todo, não existindo lugar para vaidades. Adentram na frente do carro Abre-Alas os componentes que apresentam o melhor rendimento para a execução da performance na avenida, os demais, formam um outro grupo que pode vir ajudando a conduzir o carro Abre-Alas, pois conhecem a coreografia, evitando que o mesmo atropele a Comissão de Frente, ou postados atrás do Abre-Alas, também evoluindo coreograficamente, porém sem obrigatoriedade de nota como Comissão de Frente, mas como quesito de julgamento Harmonia.

Além disso, os componentes da ala representam a escola em eventos, recepcionam as escolas co-irmãs nas festas rituais (aniversário da Escola, batizado de bloco ou escola de samba, ascensão de MestreSala e Porta-Bandeira etc.), assumindo a personagem de Guardiões do Estandarte da Escola nos ritos e situações dentro ou fora da quadra.

O tratamento do espaço cênico

A pista do sambódromo paulistano possui 520 metros de extensão por 12 metros de largura. A platéia fica distribuída em camarotes e mesas, localizados na mesma altura da pista, e arquibancadas, acima da pista. Os jurados ficam estrategicamente distribuídos em torres com aproximadamente cinco metros de altura em relação ao espaço cênico.

Considerando estes fatores, os desenhos espaciais precisam configurar formas nítidas, independentemente do plano do qual são observados.

Em 2001, a Comissão de Frente adentrava na pista numa formação em fila indiana e em seguida abria um losango. Como o figurino possuía um costeiro de aproximadamente quatro metros de diâmetro, cujas pontas eram confeccionadas em pena de pavão, a abertura para o losango enchia o espaço cênico, provocando um efeito de abertura em leque e dando a impressão  de estar adentrando um exército (mongol) na avenida.

No desfile de 2002, utilizamos formas que pincelavam o enredo, quando na primeira passagem do samba, os performers estavam dentro de suas extensões corporais (cogumelos): quadrados, cruzes, xis, retângulos.

Já em 2003, a Comissão representava um dragão e cada performer perfazia um gomo dele, as evoluções eram deslizadas de um lado para outro da pista, utilizando o movimento de andar do rangô muiól (dança tradicional coreana) para dar esta impressão.

A maestria no uso do espaço instala-se na manutenção e precisão de execução das configurações desenhadas, independentemente da extensão espacial a ser percorrida nas evoluções, para puxar ou segurar o cortejo da Escola. Portanto, as locomoções podem ser paradas, adentrando no espaço rapidamente ou paulatinamente, o que nos remete ao fator tempo.

Tempo de apresentação

O tempo total da performance da Comissão de Frente na avenida depende de pelo menos dois fatores: a quantidade de componentes da Escola de Samba, e em menor grau, do tempo utilizado pelo recuo da bateria. Existindo ainda os acasos, dentre os quais podemos citar: alguma ala temática não estar postada para entrar na pista e quebra de carro alegórico, estes acasos podem fazer com que o tempo da apresentação da Comissão de Frente seja prolongado na pista.

No ano de 2001, o tempo delimitado para a performance foi de vinte e cinco minutos, porém a Escola terminou o desfile dez minutos antes do tempo máximo permitido pelo regulamento, ou seja, na linguagem do samba, a escola correu.

Desde 2002, o tempo de exibição de nossas performances oscilam entre 32 e 37 minutos, considerando um número aproximado de 3.600 componentes na agremiação.

Fantasias e extensões corporais

As fantasias aludem à característica temática que a ala representa, de acordo com a concepção do carnavalesco. Em alguns casos, há sugestão do coreógrafo, que considera as possibilidades de movimento, peso da roupa, tempo de evolução na avenida e efeitos que a fantasia pode gerar. No carnaval comemorativo aos 450 anos da Cidade de São Paulo (2004), as fantasias da Comissão aludiam aos títulos ganhos pelo Camisa Verde no carnaval, eram completamente diferentes umasdas outras. Esta heterogeneidade fez com que a coreografia fosse trabalhada com muitos desenhos no espaço e extrema precisão nos ataques musicais e execuções gestuais do grupo, para evitar poluição visual.

A extensão corporal chamada de costeiro  propõe formas diferentes de olhar e tratar o corpo e gestual do performer pelo coreógrafo, pois as costas do componente, visualmente, assumem o tamanho do costeiro que usará, além do peso para evoluções na avenida. Normalmente, o costeiro possui uma armação em ferro ou metal que se encaixa aos ombros e pouco acima da cintura, é amarrado por cordões para não oscilar no corpo durante as evoluções, por trás deste encaixe, existe um trabalho de decoração, cujo material pode variar de isopor a madeira, costuma levar pena de pavão, faisão etc. em sua terminação.

O peso deste tipo de extensão corporal é proporcional ao seu tamanho, não permitindo grande movimentação do tronco e braços, levando o coreógrafo a enfatizar desenhos espaciais através de locomoções do grupo, em detrimento da expressividade corporal dos componentes. Tal tática foi utilizada na performance de 2001 (Guerreiros Mongóis), cujo costeiro pesava 35 quilos, e 2003 (O Grande Dragão do Mar), que, além do costeiro, mais leve e sem plumas, possuía outra extensão corporal encaixada em cada mão, da qual saía um leque com penas de pavão, pesando sete quilos cada leque.

Enredo

O enredo, temática da ala, pode sugerir a performance de maneira bem específica, sem remeter ao enredo como um todo na escola. No ano de 2006, a Comissão de Frente apresenta “o séquito de Dioniso”, doze rapazes vêm representando sátiros e a coreógrafa uma mênade, além disso é usado um cenário móvel, quatro árvores, que, ao serem Anais do IV Congresso de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (Memória ABRACE X) Rio de Janeiro 2006 • 69 manipuladas, sugerem espaços da floresta – morada dos sátiros. Dois verbos embasam os movimentos da performance: saltar e jorrar. Também é dada ênfase nos pés dos  performers, que evoluem sempre na ponta dos pés, com joelhos fletidos, transformando o andar humano em animal.

Narrativa sonora

O samba-enredo narra o desfile da Escola, por vezes suas frases podem sugerir evoluções dentro da coreografia da Comissão de Frente. Descrevo parte de anotações pertencentes ao caderno de notas coreográficas de “Trevo da sorte, trevo de quatro folhas”, performance apresentada em 2002:
... da cruz iríamos “de lá pra cá” como o samba dizia, num movimento de zigue zague, como o caminhar de um bêbado, um desencontro que terminaria numa fila indiana. Desta fila indiana, os cogumelos abririam e os duendes sairiam de dentro de suas casas, para brincar com o público.

Esta abertura aconteceria no começo da cabeça do samba, para que no momento da palavra “campeão”, os duendes pudessem vibrar. Em “vem, vem ver amor”, eles expressariam, por mímica, gestos que traduziriam literalmente a música, daí atravessariam a avenida para o lado oposto de seu cogumelo, cumprimentando as arquibancadas, com um gingado e giro terminando num gesto que era o do Mestre de Bateria – ele colocava a mão no ouvido e a outra ficava esticada – em homenagem ao coração da escola, no momento da letra: “a bateria sacudiu, quem não ouviu?”, e convidariam o público a dançar.

Nosso trabalho junto a Comissão de Frente do G.R.E.S.M. Camisa Verde e Branco, até o presente momento,  tem obtido nota máxima para o quesito. A performance da Comissão de Frente não fica limitada ao desfile na avenida, os rituais em quadra oferecem farto material a ser pesquisado.

Notas

1.  Maurílio de Oliveira e Chapinha. Quinteto em Branco e Preto, Encarte, Sentimento Popular, São Paulo, jan., 2003.

2.  Critérios de Julgamento dos quesitos para o desfile das Escolas de Samba de São Paulo 2004, p.7. Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo. SP: 2004.

3.  Escola fundada em 4 de setembro de 1953, situada na Rua James Holland, 663, no bairro da Barra Funda, antigo reduto do samba paulistano.

4.  No ano de 2006 a ala compreendeu 19 integrantes de variadas profissões: garçom, carteiro, mecânico de automóveis, montador de móveis, atendente em empresa de telefonia, consultor de qualidade, encarregado de almoxarifado, auxiliar administrativo, trainée em administração, assistente de RH, assistente de logística, gráfico, chefe de segurança, funcionário público, gerente-geral de transportadora, arquiteto de interiores, publicitário, analistas de sistema, analista sênior de produto. Dos dezenove, um é estudante de pós-graduação (MBA) em administração executiva, um é graduado em comunicação social, nove cursam graduação, sete possuem segundo grau completo e um termina o ensino fundamental.

5.  Os ensaios são dividos em:

• Ensaios para avenida – entre 35 e 45 ensaios com duração de três a cinco horas cada ensaio, que se subdividem em: ensaios visando à criação da performance, ensaios visando o uso do espaço pela ala (podem acontecer na rua ou no sambódromo), ensaios visando à qualidade da execução dos movimentos e homogeneidade do grupo (chamado de “limpeza”).

• Ensaios técnicos – realizados no sambódromo com a presença das principais alas e componentes: compositores, bateria, mestre-sala e porta-bandeira, harmonias, baianas, passistas, alas de passo marcado etc. Uma espécie de ensaio geral, aberto ao público.

• Ensaios em quadra – quando os componentes podem “brincar” o carnaval, e quando possível, participam dos rituais da corte da Escola.

6.  No ensaio técnico de 21 de janeiro de 2006, os três pavilhões da Escola estavam postados no lado esquerdo da concentração no Sambódromo, um caminhão de som voltava pela pista pelo mesmo lado, automaticamente os rapazes postaram-se à frente dos pavilhões protegendo-os, e fazendo com que o caminhão desviasse deles.

7.  O tempo de apresentação da Comissão de Frente, bem como da Escola como um todo, é definido pelo Presidente de Harmonia junto a Presidente da Escola.

8.  No Rio de Janeiro, costuma-se chamar de esplendor, no Norte e Nordeste: costado.

9.  Este artigo foi escrito às vésperas do desfile do Carnaval 2006, quando os componentes apresentarão a performance “O séquito de Dioniso” em 25 de fevereiro, às 4:30 horas. O resultado e notas do desfile serão divulgados em 27 de fevereiro de 2006.

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