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quarta-feira, 4 de abril de 2012

NOSSA HISTÓRIA - Vizinha Faladeira 1937

É muito comum nos dias de hoje ver alguém da velha guarda, membros da imprensa ou até mesmo algum torcedor mais tradicional, reclamando dos rumos que as escolas de samba estão tomando. Nos últimos anos, as comissões de frente tem sido alvo constante destas críticas. Veja a seguir que essa história vem de longo data...

"Vimos escolas de samba com carros alegóricos, instrumentos de sopro, comissões a cavalo etc. Isto não é mais uma escola de samba..."
Gazeta de Notícias

Na Praça Onze, o desfile de 1937 serviu para mostrar aos sambistas que algo de muito ruim estava para acontecer no brasil. A polícia comandada pelo mesmo delegado Dulcídio Gonçalves que obrigou a Vai Como Pode (Portela) a mudar de nome, decidiu simplesmente acabar com o desfile quando qinda faltavam dezesseis escolas a se apresentar, entre elas a Estação Primeira (que mostraria o enredo "Senhor dos Compositores de Morro"), a Prazer da Serrinha e a campeã de 1936, Unidos da Tijuca. A comissão julgadora (Raul Alves, Carlos Ferreira, Abílio Harry Alves e Lourival Pereira) deu o Primeiro lugar à Vizinha Faladeira, que impressionou não pelo samba, pela harmonia ou pela bateria, mas pelo luxo de suas alegorias e pela ostentação da sua comissão de frente: um automóvel seguido de seis homens montados a cavalo. À frente da bateria, um grupo de músicos, quase uma orquestra completa, com instrumentos de sopro inclusive, dava mais imponência ao samba da escola. Naquele ano, o regulamento do desfile eliminou a proibição do uso de instrumentos de sopro inclusive e não apresentou qualquer restrição à utilização do automóvel e dos cavalos. A Portela chegou em segundo lugar e a Depois Eu Digo em terceiro.

A comissão julgadora cumpriu o seu papel de dar notas às escolas, mas se sentiu obrigada a elaborar uma nota narrando as arbitrariedades policiais e o que lhe parecia errado nos recursos da Vizinha Faladeira:
  "Quando evoluía a Escola de Samba Cada Ano sai Melhor, o comissário de serviço no local, em nome do segundo delegado auxiliar, Dulcídio Gonçalves, que se suspendesse o concurso, mandando retirar o policiamento e o cordão de isolamento, assim, como determinou o desligamento da corrente elétrica, impedindo, assim, fossem julgadas as demais escolas. Em vista disso, a comissão retirou-se do local, assim mesmo sob protesto das escolas não julgadas, que desconheciam de onde partira tal ordem. Dessa forma, das 32 escolas inscritas no concurso, apenas dezesseis conseguiram atingir o coreto do júri."

Em seguida apresentou as suas sugestões para melhorar o julgamento do desfile:
  "Embora concedendo maioria dos pontos à Vizinha Faladeira, a comissão não deixa de reconhecer ter sido a Portela a que mais preencheu as finalidades das escolas de samba. Entretanto, assim procedeu em virtude dos quesitos apresentados não corresponderem ao julgamento a realizar. De futuro, já pelo brilho desses cortejos, já pelo número dos quesitos devem ser mais completos e firmados com antecedência bastante para que as escolas de samba por eles se possam reger.
  Pensa também a comissão que a exibição de carros alegóricos e de comissão de frente a cavalo ou de automóveis foge à finalidade das escolas de samba, hoje a parte maior, mais interessante e mais nacionalista do carnaval carioca."

A Gazeta de Notícias também não aprovou as inovações apresentadas pela Vizinha Faladeira: "Se algumas escolas de samba - aliás, a maioria - souberam guardar as suas tradições, outras desvirtuaram por completo a sua finalidade. Vimos escolas de samba com carros alegóricos, instrumentos de sopro, comissões a cavalo etc. Isto não é mais uma escola de samba. elas estão aclimatando com as rodas da cidade e, neste andar, os ranchos vão acabar perdendo para elas." Mal sabia o redator que a sua profecia, anos depois, seria uma realidade tão escandalosa que ficou difícil imaginar que houve um tempo em que os desfiles dos ranchos foram mais luxuosos do que os das escolas de samba.

FONTE: "Escolas de Samba do Rio de Janeiro" de Sérgio Cabral

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